Tópicos de vida e obra de Mikhail Bakhtin

Por João r. A. Borba (João Borba)

 

Quem foi Bakhtin?

Bakhtin foi um estudioso da linguagem russo que desenvolveu também, com base em sua teoria, reflexões críticas sobre o marxismo, a psicanálise, a história, o materialismo, a cultura, a literatura e as artes em geral, tornando-se reconhecido como filósofo. O coração de sua teoria está em uma concepção dialógica da linguagem: isto é, a noção de que qualquer objeto linguístico, qualquer texto por exemplo, deve ser compreendido não apenas concretamente, a partir de suas relações com o contexto (conforme as ideias de Marx) mas fundamentalmente como uma participação em um diálogo.

Destarte se queremos compreender todo o sentido de um texto, por exemplo, precisamos examinar quem são seus interlocutores no contexto histórico e social em que está inserido. Mais precisamente, examiná-lo a partir das seguintes perguntas: Este texto está respondendo a quê? E como ele responde a isso? Como se posiciona em relação a isso?

Essa concepção básica da linguagem como dialógica — na contracorrente do formalismo linguístico russo — não se prende às estruturas formais internas à linguagem, reinserindo seus objetos de estudo no caldo cultural que lhes deu origem e razão de ser. Ela é trabalhada por Bakhtin sobretudo em relação à linguagem verbal, mas parece aplicável também a outras formas de linguagem, não verbais. E mesmo com o foco de atenção concentrado no verbal, já serviu para oferecer uma perspectiva original a partir da qual Bakhtin soube expandir sua teoria para outros campos em que a questão da linguagem exerce também um papel importante, para além do campo puramente linguístico.

Apesar de sofrer a perseguição de Stalin aos intelectuais na ditadura da União Soviética, Bakhtin conseguiu formar um círculo de estudiosos em torno de sua proposta, e pôde fazer com que ela sobrevivesse em seus seguidores ao contexto stalinista, tornando-se mundialmente conhecida.

Sua obra mais famosa, entretanto, ultrapassa muito o território da linguística: trata-se de um livro de história da cultura popular — Cultura popular na Idade Média: O contexto de François Rabelais.

Famoso em sua época como comediante, médico e alquimista, Rabelais é apontado por Bakhtin como reflexo intelectual de um materialismo popular sui generis (e geralmente muito pouco estudado) presente na Baixa Idade Média, e sugerindo-o indiretamente como possível sinal de ateísmo inclusive — sugestão que provocou muitas reações de críticos, que julgam um tal ateísmo descabido para os padrões culturais da época e para um alquimista, o que lançou sobre Bakhtin uma certa suspeita de forçar uma visão marxista sobre os fatos.

Mesmo assim, os próprios críticos costumam reconhecer o valor e a importância dessa obra sob inúmeros outras aspectos. Entre outras coisas por romper preconceitos acerca da Idade Média, que a mostravam como carregada de uma vida cotidiana sóbria, séria e puramente espiritual: Bakhtin faz ali uma brilhante história das festividades populares e sobretudo de seus aspectos carnavalescos. Inclui um capítulo sobre a história do riso que situa historicamente o modo de rir do medieval, indo pars isso muito além da Idade Média. E finalmente, faz um cuidadoso exame da estética do grotesco, que permeia não só a produção cômica de Rabelais, mas toda a cultura estética popular festiva em seus aspectos carnavalescos.

Do ponto de vista dos métodos de pesquisa historiográfica no Brasil,, Bakhtin pode ter possivelmente contribuído com sua influência para uma tendência que, no século XX, deixa de opor o marxismo à história das mentalidades (também conhecida como história do cotidiano) e passa a procurar conciliá-las. Isso porque o marxismo bakhtiniano, preocupado com a formulação de uma psicologia objetiva (e nessa preocupação tendendo para a psicologia social), permite a acentuação dos valores culturais no estudo da história de uma sociedade.

Ainda no Brasil (e desde o século XX), estudiosos de pedagogia começaram a traçar relações entre a filosofia da linguagem de Bakhtin e a teoria psicopedagógica de outro importante pensador marxista russo: Vygotski.

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